Enem 2020: estudantes e professores do DF falam sobre desafios na preparação para prova durante pandemia


Em Brasília, 113.275 candidatos se inscreveram para exame impresso, que será aplicado no próximo domingo (17) e em 24 de janeiro. Covid-19 impôs obstáculos à realização do exame.

A primeira prova do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2020 será aplicada neste domingo (17), em todo Brasil. No Distrito Federal, 113.275 estudantes se inscreveram para a avaliação impressa. Outros 3.764 inscritos farão a versão digital, nos dias 31 de janeiro e 7 de fevereiro.

No entanto, depois de um ano atípico por conta das regras de isolamento social impostas pela pandemia de Covid-19, alunos relatam insegurança e apreensão com a chegada dos exames. Em 2020, escolas particulares tiveram que implementar, às pressas, o ensino remoto. Já nas escolas públicas, as aulas ficaram paradas por quase quatro meses. Para entender o impacto dessas mudanças, o G1 conversou com estudantes e professores sobre os desafios enfrentados na preparação para as provas em meio a uma pandemia. Veja abaixo:

Falta de aulas e acessibilidade

A estudante Nadilenny Moura, que cursa o 3º ano do ensino médio na rede pública do DF, começou o ano animada, com desejo de fazer faculdade de medicina.

"Eu já tinha um cronograma de estudos, com horários, desde os anos anteriores. Mas em 2020, com a pandemia, a escola só voltou em julho. Eu acabei pagando um cursinho, porque achei melhor que o ensino da escola", afirma.

Esta é a primeira vez que Nadilenny vai fazer o Enem. "Eu estou mais ou menos confiante, porque tive dificuldade com algumas matérias, por não ter o professor perto para tirar as dúvidas", conta.

Também estudante do 3º ano na rede pública do DF, Davi Alves Silva está preocupado com a prova deste domingo. Durante os primeiros meses da pandemia, enquanto as aulas da rede pública ainda estavam suspensas, ele precisou "se virar sozinho".

"Do começo ao meio do ano, não tive muitas opções. Precisei procurar videoaulas no Youtube, questões e exercícios para me manter estudando", diz.

No entanto, Davi acredita que ainda está em vantagem em relação a outros colegas, que não tiveram essa opção.

"Eu acredito que a minha condição ainda estava boa, porque eu tenho computador e internet para estudar. Mas eu tenho muitos amigos que não fizeram as atividades online porque não tinham internet em casa, mal tinham um celular. Muita gente precisava compartilhar o celular com outras pessoas da família para fazer as atividades".

Mudanças nos hábitos

O estudante Yago Almeida estudou, durante os três anos do ensino médio, em uma escola particular do DF, e pretende cursar direito na universidade. Ele conta que uma citação de Freud – "O futuro guia quem o aceita, mas quem o recusa é arrastado" – o ajudou neste esse ano diferente.

"Eu mantinha, desde o primeiro ano, um método de estudos pautado na compreensão das aulas presenciais com os resumos das matérias. Mas, por conta das medidas de segurança do isolamento, senti a necessidade de mudar o método", afirma Yago.

Ele lembra que um outro desafio enfrentado pelos alunos foram problemas relacionados à saúde mental, potencializados pela solidão do isolamento.

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"Isso afetou o desempenho escolar em um momento importante para a decisão acadêmica. A criação de grupos com professores para tirar as dúvidas, e a disponibilidade deles nesse processo, foram de extrema importância para nos transmitir segurança" , diz o estudante.
Para o aluno Luiz Felipe Praça, que também estuda em uma escola particular do DF, o isolamento social mudou completamente a rotina de preparação para o Enem.

"Eu já tinha um ritmo de estudo relativamente sólido antes da pandemia. Mas era principalmente dentro da escola, nas salas de estudo. Transferir esse ritmo para dentro de casa, em um ambiente em que eu não estava acostumado a ficar para estudar, foi muito difícil", explica.

Ele conta que, além de sentir falta do contato direto com os professores para tirar dúvidas, a ausência dos amigos foi "um baque". "Manter o foco também não é fácil. Quando se tem irmãos em casa, [isso] acaba te distraindo. Às vezes, o irmão pequeno quer brincar e não entende que você está estudando", conta Luiz Felipe.

O estudante quer cursar medicina e, apesar de se sentir prejudicado pela pandemia, está se concentrando para as provas. "Por mais que a escola tenha nos preparado, passado vários simulados, a gente nunca sabe se está seguro ou não. A ansiedade nesta última semana é muito intensa. Eu tenho feito meditações, caminhadas, para tentar dissipar um pouco isso e me concentrar o máximo possível".

Desafios dos professores
Para o professor e coordenador de um colégio particular de Brasília, Frederico Torres, a mudança para o ensino remoto foi um "processo de reinvenção" de todos da comunidade escolar, inclusive os pais. "Levamos um tempo até acharmos um bom equilíbrio. Escutamos feedbacks dos professores, tivemos conversas com pais", afirma.

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"Também incentivamos os alunos a preencherem questionários com os aspectos positivos e negativos do formato que utilizávamos em cada momento. Com isso, fomos fazendo ajustes no decorrer da pandemia, tentando escutar todas as demandas e equilibrar bem as nossas ações", explica o professor.

Frederico Torres também percebeu a necessidade de se mostrar sempre à disposição dos estudantes. "Na sala de aula, se eu percebesse, até pelo olhar, que um aluno não estava compreendendo a matéria, eu tinha a oportunidade de perguntar, tínhamos mais mecanismos para receber esse feedback. Eu participo dos grupos dos alunos, e procuro ser disponível para eles".

O professor de química João Bruno, que também prepara alunos para a prova do Enem, conta que as demandas "praticamente triplicaram ou quadruplicaram" durante a pandemia. Ele afirma que os alunos sentiram dificuldades e alguns não se adaptaram.

"A grande maioria ainda não tinha experimentado esse modelo de ensino."
Apesar das dificuldades, o professor acredita que o saldo final foi "interessante". "Os estudantes tiveram um atraso, pelo período que tivemos de adaptação, isso é notório. Mas o saldo do ano, com relação ao que achávamos que seria quando começou a pandemia, foi positivo", afirma.

Para evitar a ansiedade

De acordo com a psicóloga Juliana Gebrim, é natural que o aluno prestes a fazer o Enem se sinta um pouco mais ansioso. "É um contexto totalmente novo. Eles vão fazer a prova com máscara, vão ter um distanciamento com o colega. Então é normal que a tensão seja ainda maior", explica.

No entanto, a especialista recomenda diminuir a tensão com alguns cuidados, que podem ser tomados nos dias anteriores ao exame. "É importante que os estudantes tenham uma alimentação mais leve às vésperas da prova, e que eles tenham um sono mais regular".

"Não fiquem até mais tarde ao celular. E também tentem praticar atividade física. Seria excelente se eles fizessem alguma prática leve nos dias que antecedem esse certame", afirma a psicóloga.
Enem na pandemia
No domingo, os portões serão abertos às 11h30 e a entrada de alunos se encerra às 13h. O Inep recomenda que os candidatos levem o documento de inscrição nos dias de prova. O uso de máscaras de proteção será obrigatório durante toda a aplicação do exame.

Quem estiver com Covid-19 ou outras doenças infectocontagiosas nos dias de realização do Enem poderá participar da reaplicação das provas, em 23 e 24 de fevereiro de 2021. Para pedir a reaplicação, os candidatos devem comunicar a condição de saúde por meio da Página do Participante, antes da aplicação do exame.

Os participantes que apresentarem sintomas na véspera ou no dia da prova não devem comparecer ao exame. Além da Covid-19, são consideradas doenças infectocontagiosas para pedir a reaplicação:

Fonte: G1 DF
Por Brenda Ortiz, G1 DF
Foto: André Melo Andrade/Myphoto Press/Estadão Conteúdo




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