Opinião: A Solidariedade como protagonista da quarentena

Resolvi mirar as estrelas. Um lindo céu descortina meus pensamentos, e consigo pensar um pouco a respeito das visões de mundo que todos, naturalmente, possuímos. Visões que se tornam nítidas em épocas de normalidade, revelando quem somos, o que pensamos e pretendemos e as atitudes que desempenhamos na correria do cotidiano


Por Lucas Sales da Costa

É possível compreender que circunstâncias estranhas e de enorme gravidade dizem muito mais sobre a gente. Afinal, é nos dias incomuns e nas contingências extraordinárias que cada ser humano oferece sua carta de apresentação, revelando quem é na realidade. Com toda franqueza, no dia a dia de um singelo cotidiano, não somos, quase sempre, mais do mesmo? Se conseguimos avaliar o caráter de uma pessoa na forma como ela trata outras que não podem lhe trazer benefício algum, é no contexto das crises e dos sofrimentos, por sua vez, que logramos atingir uma boa avaliação dos valores que formam nosso eu interior. Dias comuns e automáticos não nos provam. A história revela: são as dificuldades, de fato, que moldam o homem. É na dureza do combate que as boas virtudes mostram seu rosto. Sim, é verdade, o contrário também pode acontecer, já que os vícios nos perseguem e podem humanamente aflorar.

O convite hoje é simples: que tal repudiar o “deixa como está para ver como fica"? Fixar os mais vulneráveis e necessitados, reagir diante do adverso, nutrir e cultivar o amor, a amizade, o altruísmo, o afeto, a tolerância, a humildade, a atenção? Refletir acerca do “sim” ou do “não” para um simples questionamento dependente tão somente de razoável moralidade? É relativamente simples agir diante do comum, navegando em águas conhecidas e nas ondas do momento. Difícil é fazer o oposto e agir de maneira distinta quando o instante exige acolhimento e preocupação em face de um mundo cada vez mais seguro e convicto de uma curta e verdadeira assertiva: ninguém pode fazer nada sozinho. Eis o momento em que se abrem as portas para a protagonista da quarentena: a Solidariedade. Bem, ela pode ser a coadjuvante, mas a opção é de cada um. Bem vindo, pois, ao nosso livre arbítrio. O comodismo nos enfraquece, ao passo que o individualismo nos aprisiona. Saiamos um pouco de uma zona de conforto passível de nos cegar.

A era do isolamento ostenta este potencial: quem aprender com ela tem tudo para tornar-se alguém bem melhor, para si próprio e principalmente para os outros. O vírus é inteligente e não escolhe o hospedeiro a partir do qual deseja reproduzir-se. Podemos, todavia, ser muito mais espertos e decifrar a mensagem por ele transmitida. E a mensagem não é pequena. Por mais sinistra que seja a tormenta, o espetáculo da vida sempre nos conduz a um palco posterior onde o horizonte permite o vislumbre de dias límpidos e irresistíveis.

Dias melhores virão. A atual crise perderá sua força e deixará cicatrizes cujas marcas precisaremos muito entender. Tem-se a convicção de que a humanidade jamais será a mesma após tudo isso passar. Como estão suas atitudes na travessia da quarentena? Finalizo. Consegui aprender que a tentativa é o nobre esforço de pessoas muito bem intencionadas e inclinadas, de modo feliz e sincero, a dignos objetivos. Dignidade que ganha relevo mesmo na hipótese de não ser atingido o resultado pretendido, já que o caminho traçado na estrada representa, por si só, belíssima valia para os que tentam. Tentar, bem se vê, pode ser tão relevante quanto alcançar. Que tal incutir a certeza de que vale a pena buscar fazer o diferente?

*Lucas Sales da Costa é juiz de direito substituto do TJDFT,  ex-advogado da União; pós-graduado em Processo Civil (Faculdade Christus-CE) e pós-graduando em Direito Constitucional (IDP/DF). 

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