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Conversar abertamente sobre sexo é fundamental

18/10/2017

/ por Paulo Melo
Pesquisa revela que apenas 55% dos homens acham que falar do assunto é normal

A educação sexual é caminho para alterar esse cenário (Foto: Shutterstock)
Acrescente dois temas na próxima vez que você e seu parceiro discutirem a relação e tiverem a famosa DR: métodos que evitam a gravidez e as doenças sexualmente transmissíveis (DSTs). De preferência, hoje mesmo. Pesquisa do Departamento de Ginecologia da Escola Paulista da Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) mostra que 72% dos homens acreditam que a responsabilidade sobre a contracepção durante a relação sexual é do casal, porém, apenas 55% dos entrevistados consideram que falar sobre o assunto é normal. Mais: 31% deles previnem-se na hora H e 48% afirmam que preferem que suas parceiras tomem pílula anticoncepcional.

O estudo foi realizado com 2 mil homens entre 15 e 25 anos em dez capitais brasileiras. Especialistas alertam que essa falta de diálogo torna difícil o combate a dois problemas de saúde pública no Brasil: a gravidez não planejada e as DSTs. Dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) revelam que uma a cada duas gestações ocorreu sem planejamento. E a pesquisa da Unifesp mostrou que 73% fizeram sexo sem usar um método contraceptivo.

Apesar de um grande desafio, reverter esses números e a mentalidade é possível, garantem os profissionais que participaram do evento Saúde e Sexualidade, promovido pela Bayer, na Capital. O fato é que a educação sexual, principalmente focada na população mais jovem, é um desses caminhos. “Esse dado sobre sexo desprotegido é muito alarmante e reforça a importância de ampliar o acesso à informação. O menino e a menina precisam falar, conversar e usar camisinha. A cada 20 minutos nasce uma criança de outra criança, ou seja, de meninas de 10 a 14 anos. Eles não usam preservativo porque têm medo de falhar e, elas, de não agradar ao parceiro. Isso tem que mudar”, afirma a obstetra e ginecologista Albertina Duarte Takiuti, responsável pelo Ambulatório de Ginecologia da Adolescência do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC/FMUSP).

Para Afonso Nazário, chefe do Departamento de Ginecologia da Unifesp, é preciso difundir informações, ensinar adolescentes sobre os métodos contraceptivos disponíveis e a importância da prevenção das DSTs. “Essa é a melhor saída para diminuir a gravidez na adolescência e o surto de sífilis”.

Dados do Ministério da Saúde apontam que, em média, 40 mil novos casos de DSTs – como aids, sífilis e hepatites virais – são detectados anualmente. Em 2015, mais de 39 mil homens foram diagnosticados com sífilis e 22,4 mil com o vírus da aids, o que corresponde a mais do que o dobro do número de mulheres infectadas com o HIV no mesmo período. A estatística evidencia a baixa adesão ao preservativo.

Na opinião de Albertina, já passou da hora de glamourizar a camisinha, ou seja, de incluir artistas e pessoas ligadas ao esporte em campanhas educativas e de prevenção. “Se o Neymar e o Cauã Reymond aparecem falando que usam, com certeza, no dia seguinte, vai ter um monte de gente fazendo uso do preservativo. Infelizmente, estamos falhando nessa comunicação. Nós – país, escola, sociedade”.

Envolvimento 
Segundo Albertina, os meninos precisam ser mais envolvidos. “Rodas de conversas são excelentes atividades. Um erro muito comum que é cometido é falar tem que usar. Não é assim, tão simples. O entendimento tem que ser de dentro para fora, eles percebendo que a camisinha é para proteger a saúde, também”.

A psicóloga e educadora sexual Laura Müller lembrou do acolhimento ao abordar questões de sexualidade. “Precisamos nos colocar no lugar do adolescente. E outro ponto importante é trabalhar com o jovem a importância do pai, de ser pai. No cenário atual, temos que trabalhar meninos e meninas da mesma maneira, porque a gravidez indesejada acaba sendo só da menina, mas ela é de ambos”.

O problema é que o assunto sexo ainda não é falado abertamente. O próprio estudo revelou que 90% gostariam que o tema contracepção não fosse considerado um tabu. “Essa questão deve ser livre de estigmas, tabus, falsas crenças. Os jovens precisam de honestidade, conversas simples e conselhos sem julgamento moral. Informação é independência e a educação empodera os adolescentes para entender suas responsabilidades e direitos quando se trata de sexo e prevenção”, diz Nazário.

O trabalho tem que ser feito já, uma vez que os dados mostram que 38% dos pesquisados aprenderam sobre sexo e métodos contraceptivos com amigos e pela internet. “Outra coisa: 60% deles afirmaram que, quando tem alguma dúvida, pesquisam na internet. E só 5% vão atrás de profissionais de saúde”, fala o ginecologista.

Fora de hora
A falta de proteção na hora do sexo e o não uso de métodos contraceptivos lançam luz sobre outra questão: a gravidez não planejada. Se o panorama mundial aponta que 41% das 208 milhões de gestações anuais não são planejadas, os números no Brasil assustam ainda mais – principalmente, entre meninas de 10 a 14 anos. “A cada 20 minutos, nasce uma criança de outra criança. São três nascidos por hora”, cita a ginecologista do HC.

Os impactos são muitos. “O custo anual disso tudo é muito alto, 10% do PIB são gastos por causa disso... Uma gestação não planejada para uma advogada, uma médica, uma mulher adulta é uma coisa. Para uma jovem, ainda mais de baixa renda, é outra completamente diferente”, completa Albertina.

Pesquisa publicada pela US National Library of Medicine aponta que metade das gestações não planejadas acaba em abortos e, muitas vezes, em óbitos. Outros problemas comuns citados nesse estudo incluíram anemia, HIV e outras DSTs, hemorragia pós-parto e transtornos mentais, como a depressão. “A gravidez não é doença, mas não está livre de riscos”, alerta o médico canadense Dustin J. Costescu, lembrando que o uso de contraceptivos reduz a taxa de mortalidade maternal.

“Precisamos encorajar as mulheres a escolherem um método anticoncepcional, falar a respeito e desmistificar alguns conceitos, como o de que a pílula provoca câncer de mama. Ela ajuda, inclusive, na redução de alguns tipos de câncer, como o de ovário, de endométrio e de reto. É uma questão de respeito às suas escolhas e necessidades”, finaliza Costescu.

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