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Comunidade, empresários e usuários pedem a revitalização da W3 sul

25/07/2017

/ por Paulo Melo
Principal polo comercial do começo de Brasília agoniza. Projetos de revitalização não saem das gavetas e, cada vez mais, lojas fecham as portas na avenida que já foi a mais visitada pelos brasilienses

Uma avenida que já carregou o título de mais pomposa de Brasília e foi um dos principais points da capital do país. Nos tempos áureos da W3 Sul, entre as décadas de 1960 e 1970, o comércio local era intenso. Atualmente, o cenário das quadras 500 da Asa Sul é de total abandono. O movimento diminui a cada ano. Lojas fecharam ou mudaram de endereço em uma espécie de efeito cascata, que se arrasta até hoje.

Na contramão da maioria, empresários enfrentam decadência da via insistindo em manter os seus negócios abertos. Alguns oferecem os mesmos serviços, como os alfaiates e ourives, profissionais raros atualmente. Outros precisaram diversificar e se reinventar para conseguir a atenção da clientela, como os donos das bancas de revista. O portal percorreu a avenida e conversou com vários comerciantes, alguns à beira da falência.

A avenida que já teve suas lojas disputadas pelos comerciantes de Brasília hoje está abandonada. A W3 Sul sofre com a falta de investimentos na região. O cenário na extensão de seis quilômetros é de insegurança, depredação e total descaso. Por conta disso, o movimento nas ruas diminui a cada dia. Hoje, 132 imóveis comerciais estão de portas fechadas. E muitos outros anunciam o fim da sobrevivência. Segundo os lojistas, o futuro não é nada promissor. A falta de conservação aliada aos altos valores dos aluguéis não permite mais a permanência ali.


Um lugar projetado para acolher sonhos. Foi assim que começou a W3 Sul, a avenida mais antiga do Plano Piloto. Muito antes da inauguração da capital federal, comerciantes oriundos da Cidade Livre, hoje Núcleo Bandeirante, ocuparam as primeiras lojas de alvenaria. O comércio era variado, de autopeças a roupas em geral. A via larga e com árvores plantadas em toda a extensão fazia parte do programa das tardes das primeiras famílias vindas para a cidade vislumbrada por Juscelino Kubitschek.

De acordo com levantamento do Sindicato do Comércio Varejista do Distrito Federal, no início do ano 89 lojas estavam desativadas. Em menos de três meses completos, houve aumento de 48,3% neste número. Em todo o Plano Piloto, a estimativa é de 480 comércios fechados. E não é para menos. Na W3 Sul, os aluguéis custam, em média, R$ 4 mil, diz o Sindivarejista. Fatura que não permite retorno aos empresários.
 

“Tentei negociar com o proprietário. Está irredutível. A firma tem que se manter e eu já não consigo mais. Tínhamos 12 funcionários, agora sobraram três. Falta estacionamento, falta segurança, falta investimento na W3 Sul. Os clientes já não buscam mais os produtos aqui”, desabafa a empresária Bernardeth Martins, 53 anos. Dona de uma loja de roupas infantis na 510, ela diz ainda que o próximo passo, caso não haja mudanças na situação, “é fechar o estabelecimento”. 

Além das despesas com o aluguel de R$ 10 mil mensais e pagamento dos funcionários, ela afirma que teve gastos com segurança. “Coloquei câmeras e fiz seguro de vida para todos os meus empregados. Só com isso, foram R$ 5 mil. E não adianta. Porque os usuários de drogas rondam a região, eles inibem a presença dos clientes. Nós já fomos assaltados. Graças a Deus ninguém foi ferido, mas é um risco abrir as portas”, salientou Bernardeth. A empresária é radical: “O governo tem que dar um jeito. Senão, todos os comerciantes vão desistir. É esse o futuro, caso nada seja feito”. 

Desiludida com o andamento do negócio, Bernardeth lembra de quando decidiu abrir a loja no local. “Tinha certeza de que seria uma boa coisa. Certeza mesmo. Porque a gente imagina que o Plano Piloto, por ser uma área nobre, nos permita isso. Mas, ao contrário. O abandono não deixa ninguém ir adiante. É impossível. Foi uma decepção para mim”. 
Comerciantes enumeram problemas

Preocupação
A quantidade de lojas fechadas preocupa os comerciantes locais, segundo o presidente da Associação Comercial do Distrito Federal (ACDF), Cléber Pires. “O número é alto e crescente. Se levar em consideração que cada estabelecimento fechado poderia gerar uma média de nove vagas de emprego, traz muita preocupação”, detalha. Na visão dele, o que ocorre é uma falta de atenção com a W3 Sul. “Como empresários, temos unido forças para tentar salvar a W3, mas parece que não existe uma atenção do governo com a via.”

 

As calçadas eram tomadas pelos candangos seduzidos por vitrines coloridas. Por anos a fio, a W3 Sul era o coração comercial do brasiliense. Infelizmente, essa não é mais a característica da região. A cada dia, fecham-se mais estabelecimentos, as calçadas estão tomadas por buracos e lixo

 

A cada dia, fecham-se mais estabelecimentos, as calçadas estão tomadas por buracos e lixo. E um último acontecimento provocou mais desânimo: o Bar e Mercado Municipal de Brasília encerrou as atividades. “É muito doloroso ver o fim de um sonho fenomenal”, lamentou a antiga dona do local, Denise Ferreira, viúva do poeta e empresário Jorge Ferreira, um dos grandes nomes da noite brasiliense.


Entra e sai governo, e o problema da revitalização da avenida W3 persiste sem solução à vista. Ao longo dos anos, alguns concursos públicos para a escolha de um projeto de urbanização dessa importante via de comércio da cidade foram realizados, os resultados e os vencedores foram divulgados e conhecidos de todos, mas, até agora, nada de prático. Ocorre que esses projetos vencedores, com o passar do tempo e do esquecimento, ficaram, de certa forma, datados, e as soluções apontadas não se encaixam nas exigências atuais. Burocracias à parte, o problema com a decadência das avenidas W3 Sul, à primeira vista, não necessita de cérebros sofisticados para se chegar a bom termo.


De saída, o que essa via requer com urgência, é limpeza e uniformização das calçadas. Ao longo de todo o trecho, a avenida não dispõem de piso largo, uniforme, limpo e convidativo para as pessoas perambularem despreocupadas. Calçadas bem desenhadas, com as exigências que um bom desenho técnico recomenda, representam a pré-condição para a revitalização da área, atraindo pessoas de todas idades e condições físicas.


A reconstrução das marquises em frente às lojas, dentro dos padrões atuais, dando mais segurança e abrigo aos passantes. Fundamental também nas duas avenidas são a limpeza e a padronização dos letreiros e propagandas das lojas, acabando com a poluição visual que enfeia e prejudica os locais.


Percorrer a W3 Sul é imaginar Brasília no passado. A avenida parece ter ficado para trás, enquanto parte da cidade se moderniza. Os projetos de revitalização, tão discutidos, jamais saíram do papel. As calçadas, por exemplo, são as mesmas desde a inauguração do local. Por isso, grande parte está deteriorada. Uma publicidade antiga do estimulante alimentar Biotônico Fontoura resiste ao tempo na 508 Sul. A loja que revendia o produto não existe mais. Os vizinhos não sabem exatamente em que data. Por ali, quase toda a quadra é ocupada pelo Espaço Cultural Renato Russo. No restante dela, funcionam supermercado, antiquário, banco e uma unidade da Companhia Energética de Brasília (CEB).

Tradição

É impossível contar a história do comércio da W3 Sul sem citar o restaurante Roma, na 511 Sul. Criado por um italiano, em 1960, o espaço foi comprado quatro anos depois pelo belga Simon Pitel, 77 anos. O estrangeiro conta que viu várias lojas encerrarem os serviços ao longo de quase meio século. “Aqui, na W3 Sul, tinha o supermercado Serve Bem, a Bibabô, a Itabrás, a Slaviero Magazine. Acompanhei tudo isso fechar. Um dos motivos, acredito eu, seja a falta de segurança”, enumera. Pitel diz que só consegue “viver de tradição”. “E vivo bem. Não me queixo. Embora nos anos 70 eu tivesse sido o rei dos restaurantes e, hoje, seja o conde”, brinca.


Na 514 Sul, o cenário é ainda pior. Campeã de lojas fechadas, com 18 estabelecimentos à espera de inquilinos, a quadra sofre também com a presença constante de moradores de rua e usuários de drogas. A comerciante Izaura Souza, 51 anos, reclama da falta de policiamento na área. 
“Quase não vejo viaturas. É muito raro”, lamenta. Há dez anos, ela abriu um restaurante e tinha esperanças de que os lucros só aumentassem. “Mas aconteceu o contrário. Só não aumentei ainda o quilo da comida para não perder ainda mais clientes. Porém, esse deve ser o próximo passo”, desabafa. 

Dívidas
A empresária paga mensalmente R$ 3 mil pelo pequeno espaço que ocupa no prédio comercial da quadra. “Só no início do ano, o valor saltou 7,5%. É incompreensível isso porque não aumenta a quantidade de clientes, não baixa o preço dos alimentos. Está ficando cada dia mais difícil manter o ponto. Estou devendo R$ 8 mil ao banco. Não tenho mais a quem recorrer para manter o fluxo no caixa. Não consigo lucrar, só isso”, diz. 

Diferença
Dona de um aviário na Avenida W3 Sul, Laine Dias, 40 anos, ainda consegue recordar da avenida dez anos atrás. “Era melhor. Muito melhor. Se antes a calçada estava sem cinco pedrinhas, hoje você conta nos dedos as que sobraram. Tinha um sonho aqui de que seria tudo de bom. Imaginava tudo lindo, só que me enganei. Caí feio”, lamenta. 
Os usuários de drogas, que rondam o comércio, também a obrigam a fechar mais cedo as portas. “No máximo 18h. Não passamos mais disso. Senão, é loucura”. 

Para ela, “a ausência de conservação da avenida está acabando com o lucro dos lojistas”. Ela explica ainda que os próprios funcionários, que optam por trabalhar no Plano Piloto, esperam salários melhores.

“Eles imaginam, assim como nós proprietários, que vão ganhar mais do que ganhariam fora da região central. É uma área nobre. Você gasta mais aqui, logo quer lucrar mais também. Essa é a lógica da coisa”, completa. 

Preços só pioram a situação
Ao longo da avenida, observam- se vários pontos com anúncios para aluguel. A reportagem telefonou para os números dos contatos para perguntar o valor dos alugúeis. Cada resposta era um susto: nenhum deles custa menos que R$ 10 mil. Uma loja 512 Sul, de 400 m², chega a custar R$ 20 mil por mês. Um prédio inteiro, de 3,1 mil m² chega a R$ 150 mil. 

Quando questionados sobre os aluguéis, os representantes das imobiliárias respondiam apenas que “é uma área nobre. Não podemos baixar o valor”. Para o presidente do Sindivarejista, Edson de Castro, os preços cobrados pelos proprietários corroboram para o abandono da avenida. “Alguns chegam a querer R$ 40 mil pelo ponto. É uma total falta de consciência isso. Não ajuda em nada os lojistas. Eles preferem os comércios fechados do que negociarem um valor menor”, diz. 



Pense nisso

Quem mora em Brasília pelo menos desde os anos 1980 pode contar como era a antiga W3 Sul: movimentada, disputada… alguns diriam até glamourosa. Era um shopping aberto, que aos poucos perdeu espaço para os centros comerciais fechados. E enquanto a iniciativa privada construía seus edifícios enormes para abrigar as lojas, o governo deixou a avenida passar do tradicional para o perigoso. Trabalhar ou passear por ali exige disposição e coragem. É dessa forma que parte da história da capital vai se apagando, aos poucos.


Mas histórias contadas por frequentadores e fotos antigas reacendem a esperança de que a dura realidade possa mudar. “Os casais saíam à noite para ver as vitrines. Era um lugar bem movimentado. Hoje, infelizmente, a gente luta para sobreviver. É triste ver que estão deixando a W3 Sul morrer. É hora de alguém salvá-la. Ainda dá tempo”, destaca Antônio Francisco Alencar, 77 anos. O comerciante resiste em uma lojinha na 508 Sul. Lá ele amola alicates e facas, conserta panelas e arruma sapatos. “A W3 era um local cobiçado pelos empresários. Não havia lojas vazias. Hoje é um tanto de faixa de ‘aluga-se’”, resume.

A primeira onda de declínio da W3 Sul ocorreu nos anos 1970 e 1980, com o surgimento dos centros comerciais na avenida e outras quadras destinadas ao comércio. Mesmo assim, empresários mantiveram a aposta na via. Nos registros do Correio, é possível ver fotografias da avenida cheia em semana de carnaval — não era para pular a festa, e sim, para comprar. Os anos foram passando e as lojas mais tradicionais, como o magazine Bi Ba Bô — onde centenas de pessoas acompanharam a primeira transmissão em cores da televisão brasileira — e a Fofi Magazine, dentre outras, foram fechando. Já nos anos 2000, numa tentativa de contribuir para salvar a avenida, o empresário Jorge Ferreira abriu o Bar e Mercado Municipal. Foi um grande acontecimento para a cidade. A casa oferecia o melhor da gastronomia aos brasilienses. Mas a crise econômica, a falta de circulação de consumidores e o descaso do poder público ajudaram a acelerar os problemas da W3 Sul. Hoje, dos 335 pontos comerciais, 53 estão fechados — o que representa 15% da totalidade.

Antigo fornecedor e amigo de Jorge Ferreira, o representante comercial Cláudio Henrique Costa, 48 anos, lamenta o fechamento do comércio e toda a situação da W3 Sul. “Nunca vi tanta loja fechar ao mesmo tempo. Se não ocorrer uma ação maior por parte dos governantes, a situação pode piorar”, resumiu. Na mesma quadra, Francisco Moreira, 71 anos, mantém uma loja de aluguel de roupas e vê com tristeza o que se tornou a W3. Perto do comércio de Francisco, são cinco portas fechadas. “Sobrevivo porque não pago aluguel. Estou há 30 anos por aqui e, a cada dia, vejo o movimento caindo. Não há um cuidado especial com esse espaço, que já foi de grande circulação das famílias brasilienses.”

Quem chegou à capital antes mesmo da inauguração também lamenta a situação da W3 Sul. A artesã Delma Peixoto, 68 anos, era uma criança, em 1968, quando veio morar na Asa Sul. Viu a W3 bem movimentada e hoje lamenta, por exemplo, as calçadas degradadas. “Hoje não se pode nem andar direito, que corremos o risco de cair no chão. Como alguém vai ter o prazer de fazer compras em uma via assim?”, questiona. Moradora da 713 Sul, ela lamenta o descaso com a região. “A cidade ainda é nova, não era para a avenida estar nessas condições, sem contar que ainda temos problemas com estacionamentos. Era bonito de ver as lojas da W3, e a famílias passeando nos fins de tarde e à noite”, lembrou.

Dono de uma loja de tecidos na 512 Sul, Anísio Soares Dias, 53 anos, chegou à avenida há 15 anos. O interesse pelo ponto comercial foi justamente a expectativa de que o movimento registrado em anos anteriores voltaria. “Hoje tem que ser malabarista para sobreviver na W3. Infelizmente, por causa da crise financeira, o movimento diminuiu. Para piorar, é clara a sensação de abandono da avenida”.


Sem identidade
Além de lojas fechadas em toda a extensão, a W3 Sul também carrega a dor de ver seus espaços públicos fechados. Dois deles são referência para a cultura da capital do país: a Biblioteca Demonstrativa de Brasília e o Espaço Renato Russo. O primeiro, um ponto tradicional de estudos, na Entrequadra 506/507 Sul, acabou interditado em maio de 2014. O prédio, à época, apresentava perigos estruturais aos usuários, como marquises com ameaça de desabamento. Por lá, circulavam entre 700 e 1,2 mil pessoas diariamente.

Três anos depois, quem passa na porta só lê numa placa a promessa do retorno das atividades. “É triste ver esse espaço fechado por tanto tempo. Lá não era somente um local de estudo, era também de convívio social e cultural. A Demonstrativa foi palco de diversos lançamentos de livros, programas de estudos, entre outras atividades comunitárias. Tudo isso fica comprometido”, ressalta o presidente da Associação de Amigos da Biblioteca Demonstrativa de Brasília, Mauro Mandelli.

Perto dali, na 508 Sul, há numa mesma edificação, teatro, sala multiuso, salas de ensaio, galpão de artes, biblioteca, mezanino para exposição, gibiteca, musiteca, galerias de arte, escritórios e estúdio de rádio. O local sempre foi uma referência para artistas, estudantes e militantes culturais, porém segue a mesma sina e está fechado desde janeiro de 2014. Na época, o Correio teve acesso à área interna e foram verificadas rachaduras, fiações expostas, teias, portas danificadas e pichações. As obras começaram após dois anos de fechamento. A promessa de entrega era para o mês passado, mas isso não aconteceu. Um novo prazo foi colocado — somente em janeiro de 2018.

Ao portal o Ministério da Cultura apenas informou que a Biblioteca Demonstrativa deve ser reaberta até o fim do ano. “A previsão de entrega dos projetos executivos de arquitetura e de obras deve sair nas próximas semanas. Uma vez prontos, uma nova licitação será aberta para definir a empresa que executará as reformas e modernização do local. Ainda neste mês, o ministério deverá ativar uma sala no Edifício Touring (na plataforma superior da Rodoviária do Plano Piloto), onde oferecerá cerca de 3 mil obras, principalmente de literatura brasileira, para atender do público adulto ao infantil”, destaca o texto. Sobre o Espaço Cultural Renato Russo, a Secretaria de Cultura do DF garante que a obra está em curso, porém, em fase inicial. “Nesta primeira fase já foi colocado o novo telhado.”

335
Pontos comerciais na W3 Sul. Isso engloba imóveis de metragens variadas.

53
Lojas fechadas em toda a extensão da avenida

15%
Percentual de estabelecimentos fechados

509
Quadra com maior número de lojas fechadas. São oito atualmente

W3 Sul: memórias afetivas


Restaurante Roma 

Um dos primeiros restaurantes a se estabelecer na W3 Sul. O belga Simon Pitel comprou o lugar em 1960 e o transformou em um dos espaços gastronômicos mais tradicionais de Brasília. As filas eram constantes no local. Entre os frequentadores estão ex-presidentes, como Fernando Henrique Cardoso e Fernando Collor, assim como cantores famosos. Funciona até hoje na 511 Sul.

Magazine Bi Ba Bô 

Era uma superloja de departamento localizada na 510 Sul. Ocupava quase metade das lojas da quadra. Por lá eram comercializadas roupas, eletrodomésticos, artigos para cozinha, cama, mesa e banho. Era o ponto de encontro do brasiliense na hora de comprar. O estabelecimento foi um dos primeiros da capital a vender as coleções do famoso estilista frances Pierre Cardin.

Fofi Magazine 

Era outra grande loja de magazines da W3 Sul. Ficava localizada em parte da 508 Sul. Concorrente direta do Magazine Bi Ba Bô, os consumidores da época comparavam os preços das duas lojas antes de comprar. A parte de roupas para crianças e bebês da Fofi chamava a atenção os brasilienses.

Pioneira da Borracha 

Em 1959, o mineiro de São Gotardo Hely Walter Couto inaugurou a Pioneira da Borracha, ainda na Cidade Livre. Dois anos depois, ele viu na W3 Sul, bem na 511, a oportunidade de abrir uma nova loja. Os investimentos cresceram e Hely abriu mais oito lojas no DF. O empreendimento trabalha com diversos produtos. È uma das resistentes da W3.

Tentativas para revitalizar a área

As tentativas de salvar a W3 foram muitas. Desde os primeiros fechamentos de lojas, surgiu uma séria preocupação por parte dos comerciantes. Em 2002, um concurso nacional, idealizado pelo governo do DF e pelo Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB), trouxe alguma esperança de recuperação. Das 27 propostas, uma acabou vencedora: a da equipe do arquiteto e urbanista Frederico Flósculo, que propôs a criação de um corredor cultural e de lazer na avenida. “A intenção era iniciar uma campanha para viabilizar a vinda para Brasília das 100 maiores instituições de cultura para se localizarem ao longo da W3 e do conjunto urbano da capital. Mas isso não saiu do papel, devido a interesses imobiliários. O governo da época apenas visava permitir a verticalização da W3 Sul. O nosso projeto propôs uma revitalização preservando os aspectos urbanos e promovendo um movimento cultural, mas não foi abraçado pelos governantes”, destaca Flósculo. 

A proposta também previa uma rede de capacitação entre os comerciantes da via, a participação efetiva da comunidade na gestão e na fiscalização da região e também resolveria alguns problemas pontuais que perduram desde aquela época. “Nós tornaríamos possível que os estabelecimentos abrissem fachadas pelos becos, reformaríamos todas as calçadas e, junto, seriam criados grandes estacionamentos subterrâneos, feitos em parceria com associados da nova geração de negócios da W3.”

Depois de 20 anos, a proposta não foi seguida, como prevista no edital do concurso. “Eu me sinto como um médico que sabe como curar o paciente, mas não pode fazer nada por ele, uma vez que os responsáveis impedem qualquer tipo de cura e ação de melhoria”, lamenta o arquiteto.

À espera do governo
Na mesma tentativa de salvar a W3 Sul, empresários da região, encabeçados pela Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL-DF), propuseram um projeto-piloto para duas quadras da avenida: a 511 e a 512 Sul, incluindo também a W2. A ação inclui a reorganização dos estacionamentos, plano de arborização e urbanismo, revitalização dos blocos entre os becos, diretrizes para colocação de publicidade nas fachadas e avaliação estrutural das marquises. A proposta foi feita em 2015. Passaram-se quase dois anos. E a situação é a mesma. Pouco, ou quase nada, sai do papel.

“Nós, comerciantes, estamos esperando que o governo se mobilize para fazer da W3 Sul um verdadeiro varejo. Se deixar ela dessa forma que está, com vandalismo, calçadas quebradas, pode ocorrer um triste fim para a avenida. Estamos preparados para mobilizar e executar o projeto-piloto para se estender por toda a via. São medidas fáceis de acesso e de custos baixos”, destaca o presidente da CDL, José Carlos Magalhães.

A Secretaria de Estado de Gestão do Território e Habitação (Segeth) informou que está em fase de elaboração o plano de padronização das calçadas das quadras envolvidas no projeto-piloto. “Em breve será disponibilizado o padrão para que os responsáveis pelos imóveis façam as adequações nas calçadas. No momento, o projeto continua em análise pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). Após o parecer do instituto, ele será aprovado por portaria pela Segeth”, destacou a nota. O Governo do Distrito Federal não respondeu sobre que fim levaram as medidas do projeto vencedor do concurso em 2002.

A avenida dos sonhos

Especialistas ouvidos pelo portal comentam como seria uma W3 Sul viva

Um lugar do resgate da história de Brasília
“É necessário chamar a atenção para essa perda histórica. Deveria se pensar em projetos para viabilizar a ocupação da W3 Sul. A história da capital é recente e pouco conhecida pelos novos moradores que habitam por aqui. Por exemplo, não dá para saber se todos têm conhecimento dos primeiros anos da W3 Sul. Era uma via charmosa e repleta de lojas. Esse resgate seria fundamental: ter a via como um espaço para conhecer a história de Brasília. O resgate poderia começar por um projeto coletivo desenvolvido por arquitetos, antropólogos, historiadores e outros profissionais capazes de pensar alternativas para o espaço. Um plano interessante de comércios de todas as variedades, preservando o patrimônio cultural e urbano da cidade.”
Mariza Veloso, Antropóloga e socióloga, professora do Departamento de Sociologia da UnB

Uma via para o turista conhecer
“A W3 Sul poderia ter uma movimentação comercial com ofertas de diversos serviços e com destaque para a área de alimentação e de bebidas. Essa característica seria atrativa para a população e os turistas. O turista não iria apenas para o restaurante, mas, por exemplo, visitar a Igrejinha na 307 Sul, o templo da Legião da Boa Vontade, entre outros espaços. O uso da W3 como espaço de lazer e cultura também ajudaria a trazer um novo movimento ao local. O Espaço Renato Russo seria um ótimo atrativo, fãs do cantor de todo o país certamente procurariam o lugar para conhecer. Se compararmos a revitalização urbana de outros centros turísticos pelo país, veremos que a acessibilidade, como no centro do Rio de Janeiro, foi pensada em termo de comunicação visual e mobilidade — com calçadas rebaixadas, pisos táteis, que facilitam a vida do cidadão e dos turistas. Isso traria mais movimento”.
Luiz Carlos Spiller Pena, Coordenador da pós-graduação de turismo da UnB

Um local para restaurar
“A W3 Sul já foi o centro do cotidiano de Brasília e se deteriorou por uma série de desleixos. Ela é uma via de serviço com atrativo comercial dentro da escalada residencial. Para reavivar a W3 Sul, deve-se pensar no restauro urbano. Isso levando em consideração que a avenida está dentro de uma cidade que é patrimônio cultural da humanidade. O tombamento não significa congelar o espaço. O restauro urbano faz parte de uma série de providências para ela se recuperar, preservando o passado, mas atendendo a contemporaneidade. Intervenções, como vagas de estacionamentos entre as quadras, revitalização de calçadas e fachadas estão dentro desse contexto. Uma série de medidas, mas não aceitando a verticalização.”
Cláudio Villar de Queiroz, Doutor em arquitetura e urbanismo pela UnB

Avenida em nossas vidas
“Cresci andando pela W3 Sul. Meu pai sempre teve esse sebo aqui na quadra e me lembro de todo o movimento que tinha nessa avenida. Naquela época, os comerciantes fechavam às 22h pelo fato de ter muita gente caminhando. A W3 era um ponto turístico.”
Carlos Nobel de Araújo, 48 anos, comerciante da 511 Sul

“Meu primeiro emprego foi na W3 Sul. Aqui era um local de oportunidades para quem queria começar a trabalhar. O movimento era sempre intenso, seja de dia ou à noite. As calçadas eram, na maioria, do estilo português e bem cuidadas. As famílias lotavam a avenida para as compras.”
Edmar Barbosa de Oliveira, 60 anos, administrador, morador da Asa Sul

“Um tempo que deixa saudades. Lembro-me da Fofi Magazine, que era uma loja sempre visitada. Por aqui havia muitos outros estabelecimentos que trabalhavam com roupas em geral, tecidos, artigos para casa, entre outros. Um verdadeiro shopping a céu aberto.”
Rosane Fagundes, 53 anos, aposentada, moradora da Asa Sul

“Vim morar em Brasília em 2000, mas conhecia a cidade desde os anos 1960, quando a W3 era bem movimentada. A rua encantava os turistas. Almoçava no restaurante Roma em algumas ocasiões e adorava passear nas calçadas. Era muito bonito ver o comércio ativo, ver o gramado bem cuidado.”
Jacinto Guerra, 82 anos, professor e escritor, morador da Asa Sul

Para saber mais
A nomenclatura das principais vias de Brasília foi pensada seguindo as coordenadas geográficas do mapa. Segundo o doutor em arquitetura e urbanismo Antônio Carlos Carpintero, o Eixo Rodoviário foi tomado como referência para separar o leste do oeste da cidade. Por isso, as vias são as W1, W2, W3, W4 e W5. Já o Eixo Monumental separa norte de sul, com as N1 e N2, e S1 e S2.

Uma via aberta para o candango
1957 – A W3 foi pensada pelo Plano Urbanístico de Lucio Costa como uma via de acesso aos armazéns de abastecimento do Plano Piloto. A via seria uma linha divisória entre a área residencial e a destinada para atividades agrícolas, como pomares, hortas e floricultura.

1958 – Depois de Lucio Costa reconhecer que a proposta inicial não atendia à demanda da população, foi permitida a construção de casas geminadas na faixa que era destinada às atividades agrícolas. Houve também mudança na proposta original relativa à posição das lojas — antes estariam voltadas para a W2.

1960 – Com as primeiras casas geminadas construídas, as quadras 700 passaram a ser ocupadas pelos funcionários públicos transferidos do Rio de Janeiro. Nas quadras 500, os comerciantes, que antes atuavam na Cidade Livre, tomaram conta da W3.

1965 – Com uma variedade de comércios, a W3 Sul é o principal centro comercial da nova capital do país. Por lá, se encontram lojas de departamentos, construção, 
enxoval, entre outras.

1970 – O surgimento de um centro comercial no centro de Brasília causa preocupação aos comerciantes da W3 Sul. Os comércios locais nas superquadras também se consolidam.

2002 – Em parceria com o Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB), o Governo do Distrito Federal (GDF), sob comando de Joaquim Roriz, realiza o Concurso Nacional de Ideias para Revitalização da W3. O projeto encabeçado pelo arquiteto Frederico Flósculo é o vencedor.

2004 – É previsto um corredor exclusivo para o transporte coletivo na W3.

2006 – Dono de alguns bares pela capital, Jorge Ferreira investe num projeto audacioso bem na quadra 508 Sul. É inaugurado o Bar e Mercado Municipal de Brasília, visto como um símbolo da tentativa de revitalização da avenida mais antiga da cidade. Na sua implantação, foram gastas mais de 400 toneladas de grades antigas de ferro fundido, arcos, vitrais e portões. Nas paredes, tábuas de demolição que vieram de Santa Catarina “casaram” com azulejos de Athos Bulcão, numa prova de convivência entre o antigo e o moderno. O arquiteto Alvinho Abreu se superou no projeto de lojinhas e dse mercado que ofereciam carnes, frutas, peixe, azeites, pastéis, cachaça, vinho, chope, verdura e queijos estrangeiros e o de Cruzília (MG), terra do empresário.

2007 – O governo pensa em construir o veículo leve sobre trilhos (VLT), no canteiro central da W3.

Um projeto moderno, com visual agradável, e que promove a acessibilidade, coisa rara nos meios de transporte e locomoção atuais, e quem precisa deles que o diga. O VLT irá trazer conforto aos usuários e retirar da W3 os ônibus e vans que hoje, apesar de serem essenciais, causam transtornos não só ao trânsito como aos moradores e lojistas que têm que suportar a poluição do ar e a sonora. 

Imagem de como ficará a W3 após o término das obras do VLT.

Assim como Brasília, as ruas e as avenidas da Capital também foram determinadas pela concepção urbanística de Lúcio Costa. Inicialmente, a W3 Sul e a W3 Norte seriam áreas destinadas ao abastecimento das residências. Com o passar do tempo, porém, o comércio tomou de conta. Ao longo das avenidas temos garagens, prédios comerciais e residenciais, floriculturas, bancas de jornal, mercadinhos, barbearias, salões de beleza, bares, pousadas, lanchonetes, restaurantes, escolas, consultórios, clínicas de estética e outros diversos serviços à disposição da comunidade. Tudo começou nas décadas de 60 e 70, quando os pioneiros trouxeram projetos comerciais para a Capital e se instalaram na W3, época em que o comércio agitava a região. Na década de 90, os bons tempos comerciais chegaram ao fim e a avenida W3 já não era mais a mesma. Essa situação se arrasta até hoje. 

Em 2001, o Projeto de Revitalização da W3 Sul e Norte foi proposto pelo arquiteto Jaime Lerner, que transformou a cidade de Curitiba/PR numa referência mundial em planejamento urbano, convertendo a cidade em conceito de qualidade de vida nos meados dos anos 90. Está prevista no projeto a implementação do Veículo Leve sobre Trilhos, o VLT, que tem por objetivo a melhoria do trânsito com redução de 30% no fluxo de carros. Além disso, a idéia do arquiteto é aquecer e incrementar o comércio local e a vida urbana na W3. 

A revitalização das avenidas W3 exigirá diversos investimentos públicos nas áreas de transporte e organização das atividades comerciais e residenciais, como por exemplo, a melhoria de praças, a construção de estacionamentos subterrâneos e de calçadas. Atualmente o que se vê são ruas abandonadas, avenidas que não oferecem condições de uso aos pedestres, poluição visual a partir de faixas, letreiros e paredes pichadas, sem falar do mal cheiro entre os becos, que virarão banheiros públicos. 

Tanto na W3 Sul quando na W3 Norte, encontram-se centros culturais públicos que por ora estão esquecidos pela desvalorização e descaso generalizado ao longo das avenidas. Em muitas das vezes, contribui para tal esquecimento o fato de as pessoas não terem conhecimento desses lugares. Entre eles, o Espaço Cultural Renato Russo, que recebeu esse nome em homenagem ao vocalista da banda Legião Urbana, o maior ídolo cultural produzido pela cidade. Na quadra 508 Sul está o maior complexo da avenida a disponibilizar oficinas à comunidade. 

Toda essa poluição causa stress, torna a via pouco atrativa aos pedestres e consequentemente destrói a vida comercial da W3. Afinal, quem quer fazer compras, passear, olhar vitrines, se sentindo ameaçado pelo trânsito e com fumaça de ônibus no nariz? Sem contar o estado de degradação geral em que se encontram a via, as calçadas e a má conservação dos prédios.

Com o VLT que não emite fumaça (ele é movido a energia elétrica) e é silencioso, serão os carros de transporte individual os vilões da vez. Além disso, todas as calçadas serão reformadas e consequentemente o comércio será revitalizado.

Entretanto, apenas no dia 27 de julho de 2009 foi realizada a primeira audiência pública para mostrar à população o projeto do Veículo Leve sobre Trilhos de Brasília. 

Além disso, o IPHAN que é um órgão competente e criterioso em suas análises já se pronunciou a favor do VLTmesmo com a catenária. E aí como se diz, “cada um no seu quadrado!” e discussão encerrada. 

E para os que pensam que esse investimento não é essencial, que o dinheiro deveria ser utilizado para melhorar a educação e a saúde, depois não reclamem que a cidade está um caos, que o trânsito está cada vez pior. E por incrível que pareça, são as mesmas pessoas que falam que não podem deixar os seus carros em casa porque o transporte público é ruim. 

Só mesmo quem teve a feliz oportunidade de viver na época dos bondes (pai do VLT) , ou viveu em cidades que já possuem esse sistema de transporte devem se lembrar de como ele é prático, leve e urbano.

2009 – O Plano Diretor de Ordenamento Territorial (Pdot), então em análise na Câmara Legislativa, prevê a W3 como área prioritária de intervenção.

2012 – A W3 passa a ter um corredor exclusivo para ônibus do transporte público do DF e taxistas.

2014 – Espaço Renato Russo é fechado. No mesmo ritmo, a Biblioteca Demonstrativa é interditada pela Defesa Civil com risco ao público.

2015 – A Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL-DF) apresenta ao GDF um projeto-piloto para tornar duas quadras da W3 Sul como modelos para uma tentativa de trazer movimento do público à região.

2017 – Nas redes sociais, Denise Ferreira, a viúva de Jorge Ferreira, anuncia o fechamento do Bar e Mercado Municipal de Brasília: “Queridos amigos, esses dias têm sido de profunda tristeza. Para além de todas as dificuldades práticas que implicam no fechamento do Bar e Mercado Municipal de Brasília, é muito doloroso ver o fim de um sonho fenomenal”.

Com informações do Correio Braziliense.
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  1. Parabéns pela reportagem. Espero q sensibilize a quem pode fazer algo para atender aos milhares de contribuintes, proprietários, moradores e usuários da W3 Sul.

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