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Árvores tombadas compõem a identidade urbana de Brasília

Espécies consideradas Patrimônio Ecológico do DF são nativas do Cerrado e apresentam características como boa qualidade da madeira, frutos comestíveis e funções medicinais

Foto: Gabriela Jabur.
Ipê-branco (Handroanthus roseo-alba), no início da L4 Sul. É uma das sete variações da espécie que pode ser vista por toda a área urbana da cidade
Com mais de 250 espécies catalogadas pela Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil (Novacap), Brasília mescla grandes áreas verdes com a arquitetura modernista. As árvores do Cerrado e as exóticas que se adaptaram ao bioma compõem o cenário urbano. Doze delas — todas nativas — são eleitas Patrimônio Ecológico do Distrito Federal.

Em junho de 1993, foi publicado o Decreto nº 14.783 instituindo o tombamento das 12 espécies. Com a medida, elas ficam protegidas da extração e da exploração em área urbana, além da caiação (pintura à base de cal) e da fixação de placas nos troncos. “Na época, técnicos da secretaria do Meio Ambiente entenderam a relevância dessa flora para o Distrito Federal”, explica Paulo César Magalhães Fonseca, coordenador da gerência de Unidades de Conservação de Proteção Integral do Instituto Brasília Ambiental (Ibram), sobre a escolha.

Algumas ganharam destaque por estar em solo brasiliense desde a construção da cidade, outras são valorizadas pela qualidade da madeira, pela folhagem ou pelos frutos. Fonseca esclarece que o decreto serviu para conscientizar os cidadãos sobre a importância da preservação: “As pessoas cortavam as espécies para construir casas, prédios e até mesmo sem motivo algum”.

O coordenador do Ibram alerta que, apesar do tombamento, o corte e a poda de qualquer árvore em área pública é crime ambiental de acordo com o Código Florestal Brasileiro.

No DF, o Ibram fiscaliza a situação por meio da gerência de Gestão Florestal. No caso de terrenos privados, proprietários ou empresas que decidirem cortar algum exemplar entre as tombadas devem replantar 30 árvores e fazer a manutenção das mudas por dois anos — o mesmo ocorre com outras espécies em área pública. “A compensação florestal deve ser feita em todos os casos”, orienta.

Mesmo com a possibilidade do replantio, o Ibram atua junto a arquitetos e proprietários para evitar o corte e a poda. “As plantas do Cerrado demoram a crescer. Explicamos a importância dessa vegetação, e muitos preferem mudar projetos para mantê-las vivas”, conta Fonseca.

Produção de mudas 
O engenheiro agrônomo da Novacap Saulo Ulhoa informa que, desde 2003, a empresa — responsável pelo plantio e pela manutenção das plantas em áreas urbanas do DF — dá preferência a árvores nativas. “Conhecemos a fundo pelo menos 90 espécies do tipo. A ideia é cultivá-las e disseminá-las.”

Ulhoa chefia os cerca de 20 funcionários que trabalham no Viveiro II da Novacap, ao lado do Parque Nacional de Brasília. Em uma área de 78 hectares, a companhia cultiva árvores e sementes, além de produzir 250 mil mudas anualmente. A capacidade máxima é de 650 mil.

A companhia é a única responsável pelo corte e pela poda das espécies tombadas. Mesmo assim, a erradicação desses tipos só pode ser feita se houver algum tipo de comprometimento da própria planta, ameaça de queda, risco à integridade de edificações públicas e interferência nas redes aéreas e subterrâneas de serviços públicos.

Veja no mapa alguns pontos em que as espécies podem ser encontradas:

Bosque nativo
A variação de jacarandá (Dalbergia spp.) mais vista no Plano Piloto é a caviúna-do-cerrado (Dalbergia miscolobium), de troncos tortuosos e pequenas folhas redondas, característica do bioma. Outro tipo é o jacarandá-da-bahia (Dalbergia nigra), de tronco mais escuro, usada em paisagismo.

Há dois tipos tombados de peroba (Aspidosperma spp.): a rosa (Aspidosperma cylindrocarpon) e a branca (Aspidosperma subincanum). Com a copa tomada por flores claras de setembro a novembro, as duas espécies são semelhantes visualmente, têm madeira de boa qualidade e diferem-se pelo tom do caule: na variação rosa, ele é avermelhado.

O pequizeiro (Caryocar brasiliense), conhecido pelos frutos usados nas gastronomias goiana e mineira, apresenta caule sinuoso e firme, típico do bioma. Como as mudas são frágeis, funcionários do Viveiro II da Novacap desenvolvem um trabalho de multiplicação das sementes. “Criamos uma técnica para transplantar as mudas e germiná-las na cidade”, informa Ulhoa.

A cagaiteira (Eugenia dysenterica), também popular pelo fruto — a cagaita —, usado em preparações regionais, como sucos, doces e sobremesas, desenvolve-se bem no solo brasiliense. “Levamos a muda pequena direto para a terra, onde ela cresce melhor do que no viveiro”, compara o engenheiro agrônomo da empresa pública.

Utilizada na confecção de móveis, a aroeira (Astronium urundeuva) da área urbana é protegida para evitar a exploração da madeira. As pequenas folhas da árvore — que chega a 14 metros de altura, com troncos de 80 centímetros de diâmetro — exalam aroma característico, que lembra o cheiro de manga-rosa madura.

Símbolo oficial do DF
Da família de palmeiras e coqueiros, o buriti (Mauritia flexuosa) cresce perto da água. Em dezembro de 1996, três anos após o decreto de tombamento, o vegetal foi declarado símbolo oficial do DF por meio da Lei nº 1.282. A espécie dá nome à praça e ao palácio que são cenários das atividades diárias do Executivo local. Os frutos, ricos em vitaminas e antioxidantes, ficam maduros entre dezembro e junho. A polpa pode ser consumida em sucos, sobremesas e preparações salgadas, como queijos vegetais.

Chamariz para periquitos, o embiruçu (Pseudobombax longiflorum) pode ser encontrado próximo a rios e lagos. O caule verde demora a crescer e chega a atingir 15 metros de altura.

A gomeira (Vochysia thyrsoidea) é usada na medicina popular como expectorante, por meio do chá feito com as cascas do caule. Com altura de até 12 metros e tronco de 40 centímetros de diâmetro, é recorrente no Centro-Oeste e no Sudeste do País.

Da mesma família da gomeira, a pau-doce (Vochysia tucanorum) é muito rara em áreas urbanas. De acordo com a Novacap, os exemplares que ainda existem são remanescentes da época da construção da cidade, mas é difícil localizá-los porque se assemelham muito a outras espécies do gênero Vochysia.

Óleo aromático
Grande e pomposa, a sucupira-branca (Pterodon pubescens) contém um óleo aromático, que, quando extraído do caule, é usado na medicina popular como anti-inflamatório no tratamento de doenças como reumatismo. Em setembro e em outubro, é possível ver flores rosadas nos galhos da copa.

Outra entre as plantas tombadas com características medicinais é a copaíba (Copaifera langsdorffii), com propriedades anti-inflamatórias. Produtos derivados de exemplares são encontrados em farmácias. “Não há nada melhor para doenças na garganta”, garante Ulhoa. Ele explica ainda que a madeira é muito valiosa, o que justifica a necessidade da proteção por tombamento.

Coletivo de ipês
Desde 2003, a Novacap trabalha com o plantio sucessivo de ipês (Handroanthus spp.), espécie de fácil reprodução e beleza ornamental, que tornou-se característica de Brasília devido à variedade de tons na época da seca. “Desenvolvemos uma técnica de guardar sementes que permitiu que a germinação ocorresse de forma rápida e eficaz”, esclarece o agrônomo.

A árvore apresenta sete variações: ipê-amarelo (Handroanthus serratifolia), ipê-amarelo-do-cerrado (Handroanthus aurea), ipê-amarelo-peludo (Handroanthus chrysotricha), ipê-branco (Handroanthus roseo-alba), ipê-caraíba (Handroanthus caraíba), ipê-rosa (Handroanthus ipe) e ipê-roxo (Handroanthus impetiginosa).

Neste ano, a empresa passou a produzir uma variação do ipê-roxo: o ipê-preto (Handroanthus impetiginosa), dotado de flores roxas e caule escuro. “Fomos no meio do Cerrado, em Goiás, buscar essas sementes”, afirma Ulhoa. “É uma árvore linda.”


Fonte: Redação.

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