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Um teste que simula exames de acesso ao ensino superior

Fizemos a prova que simula o Exame Nacional de Ensino Médio e contamos como foi. Nos dois dias, 20 mil alunos da rede pública participaram dos testes

Foto: Elton Pacheco

O sino toca e poucos minutos depois das 7h30 da manhã - horário marcado para o início das provas - uma estudante entra ofegante na sala de aula. – Você quase perdeu o horário. É assim que você vai chegar no dia da prova?, indaga a colega ao lado, enquanto a amiga recupera o fôlego. “Eu me atrasei, mas acho que não vai ter problema, né?, questiona. Teria, caso as provas aplicadas nesta quarta (16) e quinta-feira (17) em todas as escolas públicas de ensino médio do Distrito Federal fossem oficiais. Por sorte, não eram. Tratou-se de um simulado com formato inédito, proposto pela Secretaria de Educação do DF (SEDF) e executado a custo zero para os cofres públicos e com total apoio de parceiros. O objetivo, claro, era familiarizar os jovens da rede pública com as provas, regras e minúcias do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) - e também a logística comum ao Programa de Avaliação Seriada (PAS) da Universidade de Brasília (UnB).

E muita gente participou. Nestes dois dias de simulado, nos três turnos, 20 mil alunos do terceiro ano tiveram a oportunidade de testar o conhecimento e tirar dúvidas. Tudo na prática, igualzinho aos exames oficiais. Inclusive, aprenderam que chegar atrasado, como a colega, é um dos pecados capitais mais comuns – e com pena grave: a eliminação do concurso -, mas não o único. Apresentar documento falso, trocar informações na hora da prova, portar aparelhos eletrônicos são outros erros cometidos e que foram bem explicados por dois professores em sala de aula. Desta vez, os docentes participaram como fiscais da prova, supervisionada também pelo Centro Brasileiro de Pesquisa em Avaliação e Seleção e de Promoção de Eventos (Cebraspe). A dinâmica se repetiu em todas as escolas.

Do lado de fora, já não se ouvia passos no pátio do Centro de Ensino Médio Setor Leste, onde 400 estudantes fizeram as provas e a equipe da Secretaria de Educação montou base. O silêncio era absoluto. Dentro da sala de aula, no entanto, a concentração demorou um pouquinho mais para chegar.

As conversas ainda denunciavam o nervosismo – natural, já que a maioria fará o vestibular pela primeira vez em 2015. É que uma boa nota neste simulado pode ser o sinal verde que falta. Afinal, as provas para o Enem serão realizadas daqui a pouco mais de um mês, nos dias 24 e 25 de outubro. A aprovação significa garantia de futuro. Talvez a realização de um objetivo, uma mudança de realidade ou apenas mais uma etapa da vida escolar sendo concretizada.

A sala da terceiro ano B, onde eu também fiz as provas, comporta cerca de 40 alunos, mas ali também habitam sonhos. E dos grandes. “Acho que vou escolher medicina”, dizia um aluno para o colega ao lado, que preferia o curso de comunicação - estes já pensando lá na frente, quando a nota da prova oficial for divulgada. “Ainda não tenho certeza se quero mesmo direito ou comunicação, vai depender da nota”, dizia outro. Teve quem falasse de geografia, química, engenharia e até artes cênicas. Em uma turma tão plural, não poderia ser diferente.

As perguntas não paravam de chegar. Pode utilizar garrafas de água sem ser transparente? Não. Caneta de tinta preta? Apenas. Lanche? Sim – aliás, um lanchinho foi servido pela escola logo cedo, às 7h. E se eu rasurar o gabarito? Tem outro? Aos poucos, os jovens estudantes foram se acalmando. Com a biometria colhida por funcionários do Cebraspe e o gabarito identificado, estava tudo pronto. O sino toca novamente. É hora de começar as provas.

Dia a dia

Lá se vão 11 anos desde que eu terminei o ensino médio. Neste ínterim, o direcionamento da educação mudou, a forma de ensinar e o que é avaliado nos exames também. Essa foi a primeira vez que fiz um simulado para o Enem. Na minha época, as duas avaliações disponíveis eram o Programa de Avaliação Seriada (PAS) e o tradicional vestibular, ambos da UnB, mas com outra proposta.

No primeiro dia, foram 90 questões que abordaram as ciências humanas e as da natureza. Os estudantes tiveram quatro horas e trinta minutos para respondê-las – e teve quem utilizou todo o tempo disponível, como eu, mas teve também quem saiu logo após o tempo permitido, de duas horas.

As questões eram complexas e bem estruturadas de história, geografia, biologia, química e física, relacionadas com aspectos da vida cotidiana, assim como a proposta do Enem. Pensar “fora da caixinha”, relacionar uma questão com outra e interpretar o que se pede era obrigatório. A concentração atinge o ápice lá pela metade do caderno de provas, que assusta até quem já passou por isso.

Já no segundo dia - esse, de longe, o mais cansativo -, a concentração era maior de imediato, mas foram longas as cinco horas disponíveis para a prova. A mesma quantidade de questões testava o conhecimento em linguagens (português, inglês ou espanhol e literatura), mas era a matemática e o tema da redação que preocupavam os alunos. Eu deixei a matemática – meu eterno ponto fraco, é verdade – para o final e me concentrei na redação. A dica aqui é que cada um escolha a melhor forma de fazer, primeiro ou depois, mas o importante é ficar atento à marcação cronológica. A redação toma tempo e exige cuidados especiais.

Houve apostas nas conversas que antecederam a prova. Muita gente achou que o tema seria o problema da imigração na Europa. Mas acertou quem disse ser a redução da maioridade penal, um dos assuntos mais debatidos pela imprensa e sociedade nos últimos meses. O foco em atualidades foi também explorado na redação do simulado, seguindo a tendência das últimas redações do Enem, que trataram da publicidade infantil (2014), a Lei Seca no Brasil (2013), movimento imigratório para o País (2012) e a vida conectada em redes (2011).

Além de desenvolver o texto, os estudantes precisavam apresentar uma proposta de intervenção, ou seja, uma solução para o debate. No texto, não se pode desrespeitar os direitos humanos, com manifestações de preconceito por cor ou orientação sexual, por exemplo. A redação avalia o poder de síntese e de argumentação do estudante e, segundo analistas, é a parte mais importante para definir a nota final. Vi muita gente com aquela dorzinha na mão de tanto escrever. Um bom sinal, talvez.

O simulado faz parte do programa Por Dentro dos Exames do Ensino Médio, da Secretaria de Educação, que é justamente para familiarizar os jovens da rede com os exames oficiais - assim como outras ações que acontecem paralelamente. Agora, a expectativa é pela nota. Teremos, em breve, acesso ao resultado individual. Inclusive, com a redação corrigida.

O atraso da estudante citado no início do texto, é bom lembrar, foi uma exceção na escola, que não teve registro de problemas, assim como todas as outras. A falha foi comentada pelo professor, mas a aluna teve a oportunidade de errar, justamente para que não repita na prova oficial. E não é essa justamente a premissa da educação básica pública? De dar oportunidade, mostrar caminhos, apresentar perspectivas? O resto (o futuro) é com eles. A minha nota, eu conto para vocês depois.

Fonte: Redação.

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