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A desafiante libido feminina

No início dos anos de 1900, ao elaborar as teorias sobre sexualidade, o psicanalista Sigmund Freud considerou mais fácil compreender a libido masculina, que é incontestavelmente explícita. No entanto, “velado na escuridão impenetrável” da mulher, ele dizia, o assunto parecia indecifrável. Ao longo do tempo, a ciência levantou o véu: elas também sofrem com a insatisfação na cama, considerada um transtorno físico e mental que, por enquanto, nenhuma pílula consegue resolver. Como a natureza feminina, os tratamentos disponíveis não são simples e exigem, além compreensão, paciência.

Estudos feitos nos EUA estimam que cerca de 40% das mulheres sofrem com algum tipo de disfunção sexual. O mesmo país está prestes a liberar o uso de uma droga que trata a falta de desejo sexual feminino. No início deste mês, um conselho consultivo da FDA (espécie de Anvisa norte-americana) aprovou por 18 a 6 a prescrição do flibanserin. A pílula rosa, porém, precisa agir sobre um mecanismo complexo.

Os problemas sexuais são divididas em três grupos de disfunções, descritos no Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais (DSM). Para serem diagnosticados, devem causar sofrimento e dificuldade de relacionamento contínua. Há, portanto, que existir uma alteração no ciclo de respostas aos estímulos sexuais.

Basicamente, são três fases que podem ser comprometidas: o desejo, a excitação e o orgasmo. As causas são variadas. As físicas, por exemplo, podem vir de desequilíbrios em sistemas ligados a reações fisiológicas e anatômicas, como o endócrino. 

O vaginismo, por outro lado, tem origem 100% psicológica, explica Sylvia Cavalcanti, presidente da Comissão Nacional de Sexologia da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia. “Não há uma só causa. Pode ter origem em uma educação que leva a mulher a ter um certo pânico na região. Por mais que queira, não consegue destravar”, esclarece a também professora da Faculdade de Medicina do Uniceub.

Como cada situação apresenta uma característica particular, a primeira medida, aconselha a especialista, é procurar um profissional especializado. Ele vai investigar, primeiramente, se as causas que desencadeiam o transtorno são químicas, orgânicas, sociais e/ou psicológicas. É possível que o tratamento tenha início com medicações. No caso de mulheres que apresentam alterações hormonais, há a possibilidade de reposição de testosterona ou estrogênio. “Não é aumentar o que está normal, mas regular alguma coisa desequilibrada”, explica.

O próximo passo consiste em verificar se existem motivos psíquicos e sociais por trás do problema. “Há diversas técnicas que também ajudam nesse sentido. Uma coisa muito importante é a comunicação entre o casal. O sexo é feito com pequenos detalhes do dia a dia. Tem que conhecer o outro e estimulá-lo de forma adequada”, diz a médica. 

Em conjunto

As terapias não são voltadas apenas para a mulher, acrescenta a terapeuta sexual Rosenilda Moura da Silva, membro da Sociedade Brasileira de Estudos em Sexualidade Humana. A pessoa que procura a consulta é atendida primeiro, com garantia de confidencialidade. Depois, convoca-se o parceiro dela, seja do mesmo sexo ou do oposto, para que o terapeuta faça um levantamento da história sexual de cada um. A partir daí, são estabelecidas estratégias de tratamento para a disfunção detectada.

A complexidade dos fatores psicossociais não descarta a possibilidade de a indústria farmacêutica produzir uma droga que auxilie no tratamento da falta de libido feminina, opina a terapeuta. “Isso poderia ser muito favorável. Existem pesquisas desenvolvidas nesse campo, mas não temos estudos conclusivos que nos permitam colocar os medicamentos no mercado”, observa.

Os especialistas dos EUA que votaram contra o flibanserin, por exemplo, se baseiam nas reações negativas da substância com o álcool, como riscos de desmaio, sonolência, pressão baixa e enjoos, e na ausência de dados sobre os efeitos do uso do medicamento a longo prazo.

A falta de desejo, ressalta Rosenilda Moura da Silva, não é solucionada de forma simples. “Nem mesmo os medicamentos para disfunção erétil resolvem isso, pois homens que os utilizam sem desejo sexual não têm bons resultados. A droga não faz milagres quando há um fundo psicoemocional”, justifica.

O mesmo valeria para mulheres, visto que o desejo de ambos os sexos é parecido. “Só existem nuances: o homem se alimenta muito pelo visual, que também é culturalmente aprendido, enquanto algumas mulheres se alimentam com outros sentidos, como o auditivo. Mas tudo depende da cultura.”


Ação no cérebro
Embora seja comparado às drogas para disfunção erétil, o flibanserin é diferente. As mulheres teriam que tomá-lo diariamente, mesmo quando não houver a intenção de fazer sexo. Ao contrário da pílula azul, a rosa não altera o fluxo sanguíneo nos órgãos genitais, mas a química do cérebro. O medicamento foi recusado duas vezes em painéis anteriores. O FDA não tem obrigação de seguir a última recomendação, favorável, do conselho consultivo, mas costuma fazê-lo. 

Palavra de especialista
Sheryl A. Kingsberg, chefe da Divisão de Medicina Comportamental do MacDonald Women’s Hospital e 

As comunidades médica e psicológica reconheceram a disfunção sexual feminina (DSF) como condição diagnosticável há quase 40 anos, muito antes de uma farmacêutica tentar desenvolver tratamentos médicos. Mais de 10 mil manuscritos revisados sobre o transtorno foram produzidos nesse período. O último deu origem à hipótese de que muitas mulheres que experimentam a perda persistente e angustiante de desejo sexual possam ter um desequilíbrio de neurotransmissores que influenciam mecanismos excitatórios e inibitórios no cérebro. O flibanserin é inspirado nisso. Mas, se você não sofre com DSF, ele não funcionará como afrodisíaco. Ele ajuda a restaurar o desejo básico de mulheres que tiveram DSF e querem sentir desejo novamente.

Fonte: CB

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